A 2ª temporada de Stranger Things causou um grande hype ao ser lançada em outubro do ano passado, e mais uma vez não decepcionou. O enredo da nova temporada gira em torno do Will e novamente ele é a grande força motriz da história. Ao sair do Mundo Invertido ele ainda carrega vestígios da tragédia e acaba sendo possuído pelo Monstro das Sombras, o que faz com que Joyce se veja outra vez tentando salvar o filho.

A temporada começa a partir dos acontecimentos da última e mostra o que aconteceu com Eleven depois de entrar no Mundo Invertido. O público descobre que na verdade ela está com Hopper, o xerife da cidade, e esse é um dos pontos altos: a relação que se forma entre os dois. Fica visível todo o carinho que Hopper sente, é algo bem pai e filha mesmo, como se ele estivesse projetando a filha que morreu.

Talvez por medo de que algo aconteça como aconteceu com a filha, Hopper não permite que Eleven saia de casa e isso faz com que ela acabe se sentindo presa como se sentia no laboratório. É quando ela toma sua decisão e sai em uma jornada de autodescoberta, o que faz com que diferente da temporada passada, ela tenha destaque sozinha e não ao lado dos garotos, passando a temporada inteira afastada dos meninos e dos demais personagens. É mais uma coisa dela se encontrar, de encontrar a mãe e até mesmo de encontrar a própria história. Parte dessa história é introduzida quando somos apresentados à Eight, outra garota que foi vítima dos experimentos do laboratório.


Eight faz parte de um grupo de punks que usam os poderes dela para se darem bem, e a série nos apresenta à Kali (seu verdadeiro nome) em um único episódio todo voltado a isso, o que funciona bem mesmo destoando do resto do clima de série. O episódio serve para aprofundar a mitologia do Universo Stranger Things e também para que Eleven aprenda a controlar melhor os seus poderes, o que mais tarde lhe serve para fechar a fenda do Mundo Invertido ao fim da temporada. Então temos essa jornada de reencontro, que ao mesmo tempo que afasta Eleven dos garotos, aprofunda a sua história e nos permite conhecer mais da mitologia da série.


Além da relação de Eleven e Hopper, essa temporada também trouxe outro vínculo inesperado: Steve e Dustin. Steve deixou de ser aquele bad boy malvado e ganhou outra versão de si mesmo na série ao ser a "babá" das crianças e entrar na aventura delas. Ao passo que ele tem esse Carachter Development, ele perde aquele tempero de antagonista que tinha, o que faz com que sejamos apresentados a outro: Billie Hargrove. Segundo os próprios autores, eles acharam necessário um antagonismo humano além do Monstro da Sombras, que é o antagonista sobrenatural.


O Billie realmente dá medo em muitas das cenas, principalmente pela forma como trata a Max. Max é a sua meia-irmã e é outra personagem apresentada na nova temporada. Diferente do Billie, a Max é na verdade bem descartável. Ela entra para o grupo dos meninos e ela estando ali ou não a história fluiria da mesma forma. É uma personagem simpática e tem um romance bonitinho com o Lucas, mas não faz diferença alguma para o andamento da série. Não sabemos se na próxima temporada  ela vá ter realmente alguma utilidade para a trama, mas enquanto isso ficou parecendo que ela estava ali apenas para que pudesse ser dito que tinha algum personagem novo.

Além do Billie e da Max, outro novo personagem é o Bob, que diferente deles não teve um final tão agradável assim. Bob é o namorado abobalhado da Joyce, e de início parece assim como a Maxine não ter nenhuma função ali além de existir, mas nos últimos episódios, quando já estamos totalmente apegados a ele, somos surpreendidos pelo sacrifício que faz ao ser devorado por um Demogorgon e salvar os demais personagens. Contrariando a primeira impressão, a gente acaba se envolvendo e incrivelmente gostando dele.


Enquanto o Will é possuído pelo monstro que cada vez mais toma o corpo dele e enquanto a Eleven tenta se encontrar, a gente tem outro grande plot principal: o Demogorgon de estimação do Dustin. Ele é encontrado numa lata de lixo e muito provavelmente é a "lesma" que o Will cospe ao fim da primeira temporada. O Demogorgon começa como um bichinho pequeno e acaba crescendo muito rapidamente até se transformar num monstro. A relação do Dustin com o bicho é muito fofa e realmente lembra os filmes dos anos 80 de "dono e criatura", em que o dono tem uma relação de afeto com o monstrinho.

Como em Stranger Things nada é por acaso, esses três plots distintos vão convergindo até chegar ao ponto da temporada em que eles se encontram. Isso é algo bastante interessante na série: são colocado diferentes pontos de partida que de início não vemos como convergirem, até que todos os personagens chegam na mesma situação em determinado momento da temporada. É interessante ver que essas histórias vão se encaixando e que não estão ali por acaso. Isso é o que fez com que tanto a primeira como a segunda temporada tivessem o mesmo nível de qualidade no enredo.


E por fim tivemos o baile de inverno, com um orçamento bem gasto naquela trilha sonora maravilhosa e um final bem amarradinho. É legal a forma como terminam sem pontas soltas, apenas com uma leve interrogação (que não depende necessariamente de ser respondida) para a próxima temporada. Funciona como uma obra independente e caso a temporada seguinte não agrade, podemos fingir que ela não aconteceu e considerar o final da última como sendo o verdadeiro.

A palavra para essa temporada é crescimento: do Steve que definitivamente não é mais o mesmo, do Will que com certeza sai mais calejado depois de duas temporadas sendo alvo do Mundo Invertido, e da Eleven que aprendeu a controlar os poderes. O fato é que quando todos estão presos dentro de casa com uma horda de Demogorgons do lado de fora, Eleven finalmente retorna e salva o dia. Ela não precisa mais ser salva ou aprender como funciona o mundo em que vivemos. Ela é quem fecha o portal do Upside Down e é ela quem salva o dia. Eleven reencontrou a mãe, a irmã de laboratório, os poderes e a si mesma. Definitivamente não é mais a mesma e está pronta para o que quer que o Mundo Invertido reserva.


Lançada primeiramente no Reino Unido dia 27 de Outubro de 2017, The End Of The F***ing World ficou bastante famosa após entrar para o catálogo da Netflix no dia 5 de janeiro desse ano. A série conta a história de dois adolescentes: James, que acredita ser um psicopata, e Alyssa, uma jovem problemática e rebelde. Após decidirem fugir juntos até a casa do pai de Alyssa, eles acabam vivendo uma grande aventura durante o caminho, e James começa a questionar seus sentimentos, o que o faz repensar se realmente é um psicopata.

A série inteira funciona mais ou menos como uma roadtrip: dois jovens em viagem vivendo aventuras enquanto ainda estão na estrada. Muita coisa acontece até chegarem no destino final, e a viagem faz com que eles descubram mais de si mesmos, inclusive sentimentos que acreditavam não existir antes.

Todo o conjunto de acontecimentos durante a aventura é o que permite Alyssa e James, que até então mal se conheciam, se aproximarem e despertarem esse sentimento um pelo outro: eles batem o carro numa árvore, mudam totalmente o visual, roubam um posto de gasolina, invadem uma casa e matam o dono dela. Até aí eles não tinham nenhuma perspectiva a não ser chegar até a casa do pai de Alyssa. A partir dali, os dois jovens desventurados encontram uma motivação: se livrar do crime e eventualmente cometer mais crimes, mostrando um certo gosto pelo perigo.


É quando surgem as detetives Eunice e Teri, que passam a tentar localizar os dois jovens desaparecidos. A relação das duas tem vida própria e também um enredo além do plot do assassinato, o que faz com que sejam bem desenvolvidas e um dos pontos altos da série. Elas funcionam basicamente como o clichê do "policial bom e policial mau". A forma como Eunice enxerga as motivações de James e Alyssa é como o público também enxerga, e ela assume como um porta voz nosso ali, o que acaba gerando tanta empatia.

Os crimes cometidos pelo casal disfuncional de início causam uma aversão por serem tratados com tanta banalidade, mas com o passar dos episódios você acaba criando empatia pelos personagens, o que faz com que incrivelmente os crimes acabem sendo ignorados e não se tornem um empecilho para gostarmos e torcermos por eles. É um mérito da ficção: conseguir retirar a moral por um momento para nos fazer simpatizar com os heróis (ou anti-heróis). O certo e o errado é ignorado não só pelos protagonistas como também por quem assiste. O fato de cometerem crimes ou de terem matado alguém parece não importar tanto, e acabamos por torcer para que cheguem ao seu destino final e inclusive para que consigam escapar das duas detetives.


The End Of The F***ing World tem aquele tipo de humor meio macabro que só as séries britânicas conseguem ter. É boa para quem gosta desse tipo de humor mais dark, e também para sair um pouco do eixo americano. São só 8 episódios de mais ou menos 20 minutos, o que não torna a série cansativa e permite você assistir tudo em pouco mais de duas horas. O formato escolhido para contar a história se assemelha muito ao de um filme, e essa duração da série ajuda ainda mais a dar a sensação de que os 8 episódios são pedaços de um longa obra cinematográfica.


A série, no fim das contas, é sobre dois adolescentes querendo se encontrar, e oportunamente, nessa busca pelo eu de cada um, eles têm um ao outro. A série explora os dramas pessoais de cada, e fica bem claro que o romance tem sua função ali: com James serve para que se perceba como não sendo um psicopata, e para Alyssa serve para que ela tenha alguém que realmente se importe com ela, já que nem o pai ou a mãe estão verdadeiramente preocupados. James e Alyssa funcionam a maior parte da série mais como dois melhores amigos do que como um casal em si. O que nos lembra que The End Of The Fucking World não é sobre amor... ou não só sobre ele.

A 4ª temporada de Grace and Frankie estreia dia 19 na Netflix e vem cheia de novidade, incluindo Lisa Kudrow, eterna Phoebe de Friends, no elenco. Nada mais justo do que o site recapitular tudo o que aconteceu na última temporada e teorizar sobre o que nos aguarda. Concordem ou não, o fato é que a 3ª temporada foi a melhor até aqui. Ela marcou o crescimento dos personagens de diversas maneiras.

Cada personagem, incluindo os filhos da Grace e da Frankie, possuem histórias particulares e que foram exploradas mais do que em outras temporadas: Coyote e o problema com o alcoolismo, Brianna e a autossuficiência, Mallory e os problemas com o casamento e a vida de mãe. Isso tudo foi essencial para criar um vínculo maior com o restante da história, principalmente a Mallory, que desde o início da série sempre pareceu afastada e desconexa dos demais personagens. O aprofundamento dado para os seus dramas com filhos e com o marido foi essencial para humanizar a personagem e incluí-la verdadeiramente na vida dos outros personagens.


Diferente da Mallory, de todos os filhos, a Brianna sempre foi a que esteve mais presente na vida de Grace, Frankie, Robert e Sol. Brianna é obviamente a que mais brilha ali dos quatro filhos, e dessa vez não foi diferente, mesmo dividindo o brilho com a irmã. A independência e autossuficiência dela é algo que inspira e que funciona muito bem na série. Ela se basta e é feliz estando apenas consigo e o emprego, e é o que se deve boa parte de todo esse brilho dela.

Além dos problemas dos filhos, a série aprofundou também as questões dos pais. É incrível a forma como sempre conseguem ir mais a fundo em um dos plots precursores da série: a traição de Robert e Sol e o fato de terem se escondido por tantos anos. O passado e a aceitação da homossexualidade é um processo constante para eles, que estão frequentemente descobrindo o que implica socialmente ser um casal gay e que dia após dia estão aprendendo qual tipo de casal querem ser. Dessa vez Robert decidiu contar para a mãe, e mesmo ela não tendo aceitado muito bem e morrendo pouco tempo depois de dizer algumas coisas não tão agradáveis, aquilo foi necessário para que ele ficasse em paz consigo.


Toda essa atenção para as "tramas base" dos personagens nos faz lembrar sobre o que a série é e o que a move, e faz com que ela não desvie do que propôs desde o começo. O que mais agrega numa série é quando os plots dados aos personagens seguem com a história que foi proposta a eles desde o início. E isso não significa ser repetitivo ou não andar com o enredo, mas desenvolver o personagem dentro das características psicológicas dele e tendo coerência com o que foi apresentado. É o que a temporada fez, principalmente com o Coyote, que até conheceu uma garota no grupo de Alcoólicos Anônimos, o que lembra o público de uma parte importante que compõe o personagem. Ou como foi feito com Brianna, que até com um garoto de programa se relacionou, o que foi aproveitado para trazer mais uma vez a questão da sua autossuficiência dentro disso. Ou como foi feito principalmente com a Mallory, que finalmente teve suas vulnerabilidades exploradas e relações aprofundadas, o que a engrandeceu de uma forma incrível e a tornou mais presente na série. E também Bud, que agora tem uma namorada e gerencia a empresa do pai. De todos ele é o que tem a vida mais estável em diversos aspectos, tanto profissional como pessoal.

Já Grace e Frankie, diferente de Bud, possuem uma vida nada estável, tanto afetuosamente como profissionalmente. E não tem nada de errado nisso, mesmo aos 70 anos, crescer continua sendo um processo contínuo. Nessa temporada elas lutaram para emplacar o negócio de vibradores para terceira idade, e é muito legal ver que mesmo com 70 anos elas ainda possuem objetivos e veem um horizonte. Fica bem claro: a idade não as para, e nem deveria. Isso é o que move a série desde o início, e elas terem a perspectiva de um negócio só reforça essa premissa e a fome de vida delas. Isso inspira quem assiste também. Mesmo quem não é mais velho acaba se sentindo inspirado, porque o sentimento de desesperança por muitas vezes é algo bem comum a todos.


Em meio a toda a loucura das suas vidas conturbadas, Grace e Frankie ainda têm que achar tempo para promover a tal ideia do vibrador. Uma das melhores situações envolvendo isso é quando elas vão apresentar o produto para um grupo de senhoras e só depois elas descobrem que na verdade são um grupo de religiosas. No fim todas acabam aceitando a ideia e isso é bem bacana. A série mais uma vez não glamouriza ou cria uma ilusão do que é a velhice, pelo contrário, ela nos lembra das dores físicas, da dor na coluna e que sim, tomaremos alguns remédio quando chegarmos lá, o que não quer dizer que a série trate Grace e Frankie como inválidas ou que tudo isso as impeça de fazer qualquer coisa.

Parece que a cada temporada que passa Grace e Frankie rejuvenescem mais dez anos. Elas não possuem limites e cada vez mais vivem experiências ainda mais intensas, seja fazendo um strip em uma boate como foi na primeira temporada, fazendo a própria exposição de quadros como fez Frankie, ou lançando uma empresa aos 70 anos.

Se antes Grace e Frankie já eram incríveis em cena uma com a outra, agora elas tiveram definitivamente a melhor química até aqui. A temporada conseguiu aprofundar ainda mais a amizade das duas, seja através da empreitada dos vibradores ou levantando questões importantes, como o porte de armas. A forma como uma cede à outra apenas para continuar tendo o que elas têm ali juntas é lindo, e é o que a série mostra quando em vários momentos elas cedem para continuar levando a empresa de vibradores a frente ou quando Grace desiste de ter uma arma em casa. E isso é sobre o que a amizade deveria ser, não é?


Outro ponto importante foi que Brianna mais uma vez teve sua relação com Frankie aprofundada, e até emprestou dinheiro para ela levar o projeto dos vibradores a frente, mesmo que pedindo para que sua mãe não soubesse. É claro que isso não deu certo e Grace acabou descobrindo. É lindo ver uma mulher tão forte como Brianna na série, que dá suporte e tem sempre tudo sob controle, seja emocional, profissional ou financeiro.

Espero ver mais uma vez essa relação Brianna e Frankie na nova temporada, e espero também ver como Robert e Sol vão conduzir a relação deles de uma forma mais "aberta", como mostrou no trailer. A 4ª temporada já tá bem aí e torço para que a Mallory se encontre como além de mãe, e que aprofundem a relação dela com o Coyote, que até agora só ficou subentendida. Torço também para que a personagem da Lisa Kudrow seja importante e que continuem aprofundando as histórias pessoais de cada um, principalmente o Coyote com o AA. Não sabemos se isso tudo ou pelo menos uma dessas coisas vai acontecer, mas algo é certo: Grace e Frankie vão continuar ficando cada vez mais jovens.


De uns anos pra cá as séries adolescentes deixaram de abordar apenas os problemas e dilemas da idade e se tornaram mais complexas, passando a introduzir tramas que envolvem mistérios e assassinatos. O clichê adolescente de namoros e rivalidades parece não ser mais o suficiente, e tudo bem até aí, se não fosse por um pequeno fator: a "Síndrome de Pretty Little Liars".

Uma grande leva de séries teens com serial killers e adolescentes bancando os detetives vieram depois de PLL , como Scream, Scream Queens e agora Riverdale. Acontece que PLL desgastou bastante o formato, tanto pela demora em resolver mistérios como pela falta de credibilidade quando os resolvia, sempre subestimando a inteligência da audiência. Isso cansou o público e também deixou as pessoas com um pé atrás quando se trata de produções desse segmento.

Riverdale havia ganhado bastante destaque na sua primeira temporada por trazer uma trama que mesmo com um mistério de "quem matou" colocava os dramas adolescentes como ainda sendo o foco, ou um dos focos: a série começa a partir da morte de Jason Blossom. Quando Jason é dado como morto, muitos questionamentos são levantados e a vida na pacata cidade de Riverdale muda completamente. Ela e seus moradores definitivamente não são mais os mesmos. Cheryl Blossom, irmã gêmea de Jason, é a última pessoa a vê-lo e se torna uma das suspeitas. Ao passo que isso acontece, outros personagens também vivem seus dramas pessoais. Archie tem que lidar com a dúvida entre futebol e música, o relacionamento com a própria professora e com os sentimentos de Betty por ele, sua amiga de infância. É quando Veronica chega na cidade e tudo se complica: Archie se envolve com Veronica ao mesmo tempo que ela se torna amiga de Betty.


A primeira temporada foi bem amarrada e criou todo um universo em volta da cidade e do mistério principal: a gravidez de Polly, a guerra a la Montéquios e Capuletos entre as famílias Cooper e Blossom, o romance de Archie com a professora e a sua dúvida entre o futebol e a música. Na verdade o mistério estava ali e importava, mas não era o grande trunfo, o que prendia o público. Riverdale prendia pela proposta ousada de trazer uma série teen gostosinha como não se via a muito tempo, sem o enfadonho serial killer que todos tentavam descobrir a qualquer custo. Havia um "quem matou", mas era isso e só isso, sem mortes contínuas.

A 2ª Temporada parece ter perdido a mão com o fim do mistério principal (que esse sim fazia sentido e tinha uma utilidade para girar as demais tramas) no que propunha desde o começo. O que nós vemos agora é mais do mesmo: adolescentes bancando a turma do Scooby Doo e tentando descobrir quem está matando os "pecadores" da cidade. Parece até que os produtores realmente acham que o público ainda quer isso. O ideal para Riverdale seria focar nos mistérios e dramas pessoais de cada personagem, com aquele típico clima de série que se passa em cidade do interior. A falta de uma série teen em que os problemas adolescentes sejam apenas os problemas adolescentes é grande, e Riverdale parecia suprir um pouco isso.

A série entrou em hiatus com um suposto Black Hood descoberto, mas como PLL bem nos ensinou, é claro que o Black Hood não é um estranho aleatório sem importância. Ou pode até ser... já que ninguém sabia da existência da irmã da Spencer até o final da série. O fato é que foram 3 "-A's" em PLL, sem contar as esporádicas e as de Scream e Scream Queens. Tanto desgaste assim deveria ter ensinado que nós não precisamos de mais uma -A.

Caracther Development é o nome que se dá ao crescimento de um personagem durante toda a série. Ao passo em que os problemas e adversidades vão acontecendo, o personagem amadurece e aprende a lidar com as coisas de uma forma um pouquinho mais adulta, e isso implica em errar e quebrar a cara diversas vezes. Para a estreia da coluna Analisando Personagens, escolhemos Jenny Humphrey, a outsider do Upper East Side.

Jenny cresceu no Brooklyn e quando passa a estudar numa escola para meninas da alta sociedade nova-iorquina, ela se vê impressionada por todo aquele mundo de luxo, poder e controle. No começo da série já é perceptível todo o deslumbre dela sobre aquilo, principalmente sua admiração por Serena, e em especial, por Blair. Se no começo ela queria apenas fazer amigos, em algum momento da jornada tudo o que ela passa a querer é fazer parte daquele mundo e se sentir uma daquelas garotas. Mais do que isso, ela passa a querer ser a nova Blair e consequentemente a nova rainha da Constance Billard School for Girls.


Durante sua jornada por popularidade e aceitação, Jenny aprende que precisa de muito mais do que boa vontade para ser a Blair, ou ao menos uma Upper East Sider. É preciso jogo de cintura para lidar com os meandros adolescentes da alta sociedade. E tudo isso já na primeira temporada, com apenas 14 anos. Essa diferença de idade com os outros personagens é outra coisa que a distancia do mundo deles, tanto que "Little J" passa a ser seu apelido, uma ótima alusão ao quão pequena Jenny se sente no meio daquelas pessoas.

Ao aceitar ser a escrava pessoal de Blair, fazendo todas suas tarefas, Jenny começa aos poucos a integrar o mundo das garotas que ela tanto admira. Se de início Blair e as mean girls veem Jenny como ingênua e até tentam fazê-la ser pegue pela polícia numa noite do pijama regada de desafios perigosos (para que prove estar apta a fazer parte daquele mundo), elas logo percebem estarem erradas. Jenny cumpre tudo com maestria e consegue inclusive se passar por Blair para que a polícia não a prenda na loja de Eleanor Waldorf, encerrando o episódio com aquele close maravilhoso no elevador da casa da Queen B. É aí que a rainha da Constance começa a ver o potencial de Jenny, mas é só quando Blair é vítima de um boato terrível que ela tem a certeza de que Jenny não é tão ingênua assim. Jenny aproveita o momento de crise no reinado de Blair para tomar o seu lugar e controlar as outras garotas.


Em meio a boatos, trapaças e até o roubo de um vestido, Jenny rouba também a vida de Blair. A Little J joga iogurte na sua cabeça, rouba Nate, o leva num jantar em que Blair organiza para tentar recuperar a popularidade e espalha fofocas para a Gossip Girl. A guerra pelo reinado é acirrada e é só quando a sexualidade do namorado de Jenny e a farsa sobre sua virgindade são reveladas que ela é definitivamente destronada e volta de uma vez por todas ao fundo da cadeia social.

Acredito que grande parte do público se identificou ali, buscando reconhecimento e aceitação a qualquer custo. A pressão para sermos aceitos nos acompanha durante toda a vida, mas é na adolescência que isso se intensifica e se torna mais presente. Claro que na série isso é levado a níveis extremos e a uma realidade distante, mas os sentimentos em que se baseiam os acontecimentos é algo bastante comum aos espectadores.


"I lied, and I stole, and I lost the respect of my family, for what? So I can be like you? You asked me before if it was all worth it. And my answer is it's not."

É com essa frase que o ciclo da primeira temporada se encerra. Jenny é ambiciosa e desde o início mostrava uma necessidade irreversível por aceitação. Ela gritou por ajuda muitas vezes, mas ninguém parecia ouvi-la. A única forma que ela conseguiu para lidar com isso foi seguindo em frente, o que na maioria das vezes significava cometer os mesmos erros. Eu sempre fui Team Little J pelo fato de que ela precisou lutar para chegar onde chegou, ao contrário da Blair que sempre teve tudo na mão. Com o fim da guerra pelo trono da Constance nós achamos que Jenny realmente voltaria a ser a garota ingênua do começo da série, mas nós somos surpreendidos pela 2ª temporada.


A 2ª temporada marca uma mudança radical em Jenny, começando pela aparência. Jenny assume um visual e uma personalidade mais rebelde, tanto através das roupas e do corte de cabelo, como também da maquiagem pesada. É claro que sabemos que foi por causa da Taylor Momsen, que pediu para combinar o estilo da personagem com o seu na vida real, mas a mudança foi super positiva e contribuiu sim para a narrativa. A mudança na aparência representa bem seu sentimento ali: alguém que foi bastante ferida e que vê a necessidade de se reinventar. Se antes ela tentava ser aceita através do colégio, ela agora tenta isso entrando no mundo da moda. A jornada por aceitação de Jenny poderia muito bem ter parado ali com o que acreditávamos ser o fim da rivalidade com Blair (que pelo contrário, estava longe de acabar), mas a 2ª temporada mostra como estávamos enganados.

Jenny cresce de diversas formas nessa temporada. Ela está ciente de que não precisa de Blair ou das amigas ou de popularidade alguma para ser aceita, e deixa isso claro diversas vezes, tanto que quase acaba largando a escola. Jenny tenta se emancipar, foge de casa e acaba até indo trabalhar com a mãe de Blair, o que não dá certo e ela termina se demitindo, provando mais uma vez que agora sabe o seu valor. Aos poucos ela vai se dando conta que ninguém precisa lhe dar a importância que só ela mesma pode dar, mas de alguma forma continuando sempre insegura e perdida naquele mundo.


Todo esse crescimento vai por água abaixo quando Blair ao fim do Ensino Médio coroa Jenny como rainha da Constance, que é o pontapé para o enredo da terceira temporada. Quando Rufus vai morar com Lily, Jenny passa a oficialmente fazer parte do Upper East Side, embora sempre sendo vista com um pé atrás por quem nasceu ali dentro. Isso acontece ao mesmo tempo em que ela se torna rainha da Constance. De início Jenny tenta pôr a vida nos trilhos mais uma vez, ela até se esforça para acabar com a hierarquia social do colégio e propõe um novo modelo social para a escola, o que não é aceito e logo ela passa a assumir a postura de Evil Queen que tanto ansiávamos para que ela assumisse.


"What's wrong with me?"

Parece que algo sempre arrasta Jenny para problemas e para o jogo de poder do Upper East Side. O fato é que Jenny sempre foi uma garota problemática, e o caminho que ela leva na 3ª temporada lhe deixa no mesmo patamar que o de Serena antes de ir para o colégio interno. Ela passa a se envolver com um traficante, quase perde a virgindade com o cara (que não dá a mínima para ela e isso faz com que ela se sinta a pior pessoa do mundo) e mais uma vez passa por cima de amigos, família e pessoas que se importam com ela (inclusive para triunfar no baile de debutantes). Fica claro que o Upper East Side é tóxico para ela. O jogo ficou mais pesado, e Jenny parece não ter mais controle ou tanta certeza assim de onde quer chegar como tinha na primeira temporada, ela só sabe que quer continuar indo.


"Miss Jennifer Tallulah Humphrey. Escorted by… Mr. Nathaniel Archibald."

O baile de debutante é o que marca a visão da série sobre a Jenny: ela pode estar em qual situação for, ela sempre acha uma saída. Jenny mostra mais uma vez seguir o conselho de Blair: "you need to be cold to be a queen". Em um único episódio ela usa Nate e destrata e passa a perna em Eric e Blair, o que nos lembra que Jenny sempre usou as pessoas. Foi assim durante a guerra de popularidade com Blair e foi assim na sua tentativa de entrar no mundo da moda. Usando as pessoas ou não, o fato é que Jenny sempre achou uma saída. Quer dizer, quase sempre... a única saída que ela não encontrou foi para o ultimato de Blair para que fosse embora de New York.


"When are you gonna get it? For three years, you've tried to worm your way into our world, but you will never be a part of it no matter what you do. This isn’t copycat dressing at Constance. Or dropping dairy on your best friend to prove a point."

O final da jornada de Jenny na 3ª temporada deixa bem clara essa sede por aceitação, como quando Blair visita seu apartamento e joga na cara dela que ninguém a ama, nem mesmo seu pai, ou quando Eric encontra ela chorando e ela afirma que todos a odeiam. Todos que amou, e que a amaram, ela decepcionou. Jenny pra mim foi a mais intensa da série. Ela sempre soube o que queria e como chegar lá, mesmo que tenha se perdido no caminho. Mesmo em meio a toda a loucura daquele mundo, ela nunca desistiu e nunca baixou sua cabeça. Todos julgam ela pelos erros cometidos, mas idolatram a Blair pelos motivos que odeiam a Jenny. O fato é que Jenny sempre foi incompreendida. No fim das contas... ela era apenas uma garota que precisava ser amada.