Jenny Humphrey e a insaciável vontade de ser aceita

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Caracther Development é o nome que se dá ao crescimento de um personagem durante toda a série. Ao passo em que os problemas e adversidades vão acontecendo, o personagem amadurece e aprende a lidar com as coisas de uma forma um pouquinho mais adulta, e isso implica em errar e quebrar a cara diversas vezes. Para a estreia da coluna Analisando Personagens, escolhemos Jenny Humphrey, a outsider do Upper East Side.

Jenny cresceu no Brooklyn e quando passa a estudar numa escola para meninas da alta sociedade nova-iorquina, ela se vê impressionada por todo aquele mundo de luxo, poder e controle. No começo da série já é perceptível todo o deslumbre dela sobre aquilo, principalmente sua admiração por Serena, e em especial, por Blair. Se no começo ela queria apenas fazer amigos, em algum momento da jornada tudo o que ela passa a querer é fazer parte daquele mundo e se sentir uma daquelas garotas. Mais do que isso, ela passa a querer ser a nova Blair e consequentemente a nova rainha da Constance Billard School for Girls.


Durante sua jornada por popularidade e aceitação, Jenny aprende que precisa de muito mais do que boa vontade para ser a Blair, ou ao menos uma Upper East Sider. É preciso jogo de cintura para lidar com os meandros adolescentes da alta sociedade. E tudo isso já na primeira temporada, com apenas 14 anos. Essa diferença de idade com os outros personagens é outra coisa que a distancia do mundo deles, tanto que "Little J" passa a ser seu apelido, uma ótima alusão ao quão pequena Jenny se sente no meio daquelas pessoas.

Ao aceitar ser a escrava pessoal de Blair, fazendo todas suas tarefas, Jenny começa aos poucos a integrar o mundo das garotas que ela tanto admira. Se de início Blair e as mean girls veem Jenny como ingênua e até tentam fazê-la ser pegue pela polícia numa noite do pijama regada de desafios perigosos (para que prove estar apta a fazer parte daquele mundo), elas logo percebem estarem erradas. Jenny cumpre tudo com maestria e consegue inclusive se passar por Blair para que a polícia não a prenda na loja de Eleanor Waldorf, encerrando o episódio com aquele close maravilhoso no elevador da casa da Queen B. É aí que a rainha da Constance começa a ver o potencial de Jenny, mas é só quando Blair é vítima de um boato terrível que ela tem a certeza de que Jenny não é tão ingênua assim. Jenny aproveita o momento de crise no reinado de Blair para tomar o seu lugar e controlar as outras garotas.


Em meio a boatos, trapaças e até o roubo de um vestido, Jenny rouba também a vida de Blair. A Little J joga iogurte na sua cabeça, rouba Nate, o leva num jantar em que Blair organiza para tentar recuperar a popularidade e espalha fofocas para a Gossip Girl. A guerra pelo reinado é acirrada e é só quando a sexualidade do namorado de Jenny e a farsa sobre sua virgindade são reveladas que ela é definitivamente destronada e volta de uma vez por todas ao fundo da cadeia social.

Acredito que grande parte do público se identificou ali, buscando reconhecimento e aceitação a qualquer custo. A pressão para sermos aceitos nos acompanha durante toda a vida, mas é na adolescência que isso se intensifica e se torna mais presente. Claro que na série isso é levado a níveis extremos e a uma realidade distante, mas os sentimentos em que se baseiam os acontecimentos é algo bastante comum aos espectadores.


"I lied, and I stole, and I lost the respect of my family, for what? So I can be like you? You asked me before if it was all worth it. And my answer is it's not."

É com essa frase que o ciclo da primeira temporada se encerra. Jenny é ambiciosa e desde o início mostrava uma necessidade irreversível por aceitação. Ela gritou por ajuda muitas vezes, mas ninguém parecia ouvi-la. A única forma que ela conseguiu para lidar com isso foi seguindo em frente, o que na maioria das vezes significava cometer os mesmos erros. Eu sempre fui Team Little J pelo fato de que ela precisou lutar para chegar onde chegou, ao contrário da Blair que sempre teve tudo na mão. Com o fim da guerra pelo trono da Constance nós achamos que Jenny realmente voltaria a ser a garota ingênua do começo da série, mas nós somos surpreendidos pela 2ª temporada.


A 2ª temporada marca uma mudança radical em Jenny, começando pela aparência. Jenny assume um visual e uma personalidade mais rebelde, tanto através das roupas e do corte de cabelo, como também da maquiagem pesada. É claro que sabemos que foi por causa da Taylor Momsen, que pediu para combinar o estilo da personagem com o seu na vida real, mas a mudança foi super positiva e contribuiu sim para a narrativa. A mudança na aparência representa bem seu sentimento ali: alguém que foi bastante ferida e que vê a necessidade de se reinventar. Se antes ela tentava ser aceita através do colégio, ela agora tenta isso entrando no mundo da moda. A jornada por aceitação de Jenny poderia muito bem ter parado ali com o que acreditávamos ser o fim da rivalidade com Blair (que pelo contrário, estava longe de acabar), mas a 2ª temporada mostra como estávamos enganados.

Jenny cresce de diversas formas nessa temporada. Ela está ciente de que não precisa de Blair ou das amigas ou de popularidade alguma para ser aceita, e deixa isso claro diversas vezes, tanto que quase acaba largando a escola. Jenny tenta se emancipar, foge de casa e acaba até indo trabalhar com a mãe de Blair, o que não dá certo e ela termina se demitindo, provando mais uma vez que agora sabe o seu valor. Aos poucos ela vai se dando conta que ninguém precisa lhe dar a importância que só ela mesma pode dar, mas de alguma forma continuando sempre insegura e perdida naquele mundo.


Todo esse crescimento vai por água abaixo quando Blair ao fim do Ensino Médio coroa Jenny como rainha da Constance, que é o pontapé para o enredo da terceira temporada. Quando Rufus vai morar com Lily, Jenny passa a oficialmente fazer parte do Upper East Side, embora sempre sendo vista com um pé atrás por quem nasceu ali dentro. Isso acontece ao mesmo tempo em que ela se torna rainha da Constance. De início Jenny tenta pôr a vida nos trilhos mais uma vez, ela até se esforça para acabar com a hierarquia social do colégio e propõe um novo modelo social para a escola, o que não é aceito e logo ela passa a assumir a postura de Evil Queen que tanto ansiávamos para que ela assumisse.


"What's wrong with me?"

Parece que algo sempre arrasta Jenny para problemas e para o jogo de poder do Upper East Side. O fato é que Jenny sempre foi uma garota problemática, e o caminho que ela leva na 3ª temporada lhe deixa no mesmo patamar que o de Serena antes de ir para o colégio interno. Ela passa a se envolver com um traficante, quase perde a virgindade com o cara (que não dá a mínima para ela e isso faz com que ela se sinta a pior pessoa do mundo) e mais uma vez passa por cima de amigos, família e pessoas que se importam com ela (inclusive para triunfar no baile de debutantes). Fica claro que o Upper East Side é tóxico para ela. O jogo ficou mais pesado, e Jenny parece não ter mais controle ou tanta certeza assim de onde quer chegar como tinha na primeira temporada, ela só sabe que quer continuar indo.


"Miss Jennifer Tallulah Humphrey. Escorted by… Mr. Nathaniel Archibald."

O baile de debutante é o que marca a visão da série sobre a Jenny: ela pode estar em qual situação for, ela sempre acha uma saída. Jenny mostra mais uma vez seguir o conselho de Blair: "you need to be cold to be a queen". Em um único episódio ela usa Nate e destrata e passa a perna em Eric e Blair, o que nos lembra que Jenny sempre usou as pessoas. Foi assim durante a guerra de popularidade com Blair e foi assim na sua tentativa de entrar no mundo da moda. Usando as pessoas ou não, o fato é que Jenny sempre achou uma saída. Quer dizer, quase sempre... a única saída que ela não encontrou foi para o ultimato de Blair para que fosse embora de New York.


"When are you gonna get it? For three years, you've tried to worm your way into our world, but you will never be a part of it no matter what you do. This isn’t copycat dressing at Constance. Or dropping dairy on your best friend to prove a point."

O final da jornada de Jenny na 3ª temporada deixa bem clara essa sede por aceitação, como quando Blair visita seu apartamento e joga na cara dela que ninguém a ama, nem mesmo seu pai, ou quando Eric encontra ela chorando e ela afirma que todos a odeiam. Todos que amou, e que a amaram, ela decepcionou. Jenny pra mim foi a mais intensa da série. Ela sempre soube o que queria e como chegar lá, mesmo que tenha se perdido no caminho. Mesmo em meio a toda a loucura daquele mundo, ela nunca desistiu e nunca baixou sua cabeça. Todos julgam ela pelos erros cometidos, mas idolatram a Blair pelos motivos que odeiam a Jenny. O fato é que Jenny sempre foi incompreendida. No fim das contas... ela era apenas uma garota que precisava ser amada.

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