Eleven e a jornada de autodescoberta

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A 2ª temporada de Stranger Things causou um grande hype ao ser lançada em outubro do ano passado, e mais uma vez não decepcionou. O enredo da nova temporada gira em torno do Will e novamente ele é a grande força motriz da história. Ao sair do Mundo Invertido ele ainda carrega vestígios da tragédia e acaba sendo possuído pelo Monstro das Sombras, o que faz com que Joyce se veja outra vez tentando salvar o filho.

A temporada começa a partir dos acontecimentos da última e mostra o que aconteceu com Eleven depois de entrar no Mundo Invertido. O público descobre que na verdade ela está com Hopper, o xerife da cidade, e esse é um dos pontos altos: a relação que se forma entre os dois. Fica visível todo o carinho que Hopper sente, é algo bem pai e filha mesmo, como se ele estivesse projetando a filha que morreu.

Talvez por medo de que algo aconteça como aconteceu com a filha, Hopper não permite que Eleven saia de casa e isso faz com que ela acabe se sentindo presa como se sentia no laboratório. É quando ela toma sua decisão e sai em uma jornada de autodescoberta, o que faz com que diferente da temporada passada, ela tenha destaque sozinha e não ao lado dos garotos, passando a temporada inteira afastada dos meninos e dos demais personagens. É mais uma coisa dela se encontrar, de encontrar a mãe e até mesmo de encontrar a própria história. Parte dessa história é introduzida quando somos apresentados à Eight, outra garota que foi vítima dos experimentos do laboratório.


Eight faz parte de um grupo de punks que usam os poderes dela para se darem bem, e a série nos apresenta à Kali (seu verdadeiro nome) em um único episódio todo voltado a isso, o que funciona bem mesmo destoando do resto do clima de série. O episódio serve para aprofundar a mitologia do Universo Stranger Things e também para que Eleven aprenda a controlar melhor os seus poderes, o que mais tarde lhe serve para fechar a fenda do Mundo Invertido ao fim da temporada. Então temos essa jornada de reencontro, que ao mesmo tempo que afasta Eleven dos garotos, aprofunda a sua história e nos permite conhecer mais da mitologia da série.


Além da relação de Eleven e Hopper, essa temporada também trouxe outro vínculo inesperado: Steve e Dustin. Steve deixou de ser aquele bad boy malvado e ganhou outra versão de si mesmo na série ao ser a "babá" das crianças e entrar na aventura delas. Ao passo que ele tem esse Carachter Development, ele perde aquele tempero de antagonista que tinha, o que faz com que sejamos apresentados a outro: Billie Hargrove. Segundo os próprios autores, eles acharam necessário um antagonismo humano além do Monstro da Sombras, que é o antagonista sobrenatural.


O Billie realmente dá medo em muitas das cenas, principalmente pela forma como trata a Max. Max é a sua meia-irmã e é outra personagem apresentada na nova temporada. Diferente do Billie, a Max é na verdade bem descartável. Ela entra para o grupo dos meninos e ela estando ali ou não a história fluiria da mesma forma. É uma personagem simpática e tem um romance bonitinho com o Lucas, mas não faz diferença alguma para o andamento da série. Não sabemos se na próxima temporada  ela vá ter realmente alguma utilidade para a trama, mas enquanto isso ficou parecendo que ela estava ali apenas para que pudesse ser dito que tinha algum personagem novo.

Além do Billie e da Max, outro novo personagem é o Bob, que diferente deles não teve um final tão agradável assim. Bob é o namorado abobalhado da Joyce, e de início parece assim como a Maxine não ter nenhuma função ali além de existir, mas nos últimos episódios, quando já estamos totalmente apegados a ele, somos surpreendidos pelo sacrifício que faz ao ser devorado por um Demogorgon e salvar os demais personagens. Contrariando a primeira impressão, a gente acaba se envolvendo e incrivelmente gostando dele.


Enquanto o Will é possuído pelo monstro que cada vez mais toma o corpo dele e enquanto a Eleven tenta se encontrar, a gente tem outro grande plot principal: o Demogorgon de estimação do Dustin. Ele é encontrado numa lata de lixo e muito provavelmente é a "lesma" que o Will cospe ao fim da primeira temporada. O Demogorgon começa como um bichinho pequeno e acaba crescendo muito rapidamente até se transformar num monstro. A relação do Dustin com o bicho é muito fofa e realmente lembra os filmes dos anos 80 de "dono e criatura", em que o dono tem uma relação de afeto com o monstrinho.

Como em Stranger Things nada é por acaso, esses três plots distintos vão convergindo até chegar ao ponto da temporada em que eles se encontram. Isso é algo bastante interessante na série: são colocado diferentes pontos de partida que de início não vemos como convergirem, até que todos os personagens chegam na mesma situação em determinado momento da temporada. É interessante ver que essas histórias vão se encaixando e que não estão ali por acaso. Isso é o que fez com que tanto a primeira como a segunda temporada tivessem o mesmo nível de qualidade no enredo.


E por fim tivemos o baile de inverno, com um orçamento bem gasto naquela trilha sonora maravilhosa e um final bem amarradinho. É legal a forma como terminam sem pontas soltas, apenas com uma leve interrogação (que não depende necessariamente de ser respondida) para a próxima temporada. Funciona como uma obra independente e caso a temporada seguinte não agrade, podemos fingir que ela não aconteceu e considerar o final da última como sendo o verdadeiro.

A palavra para essa temporada é crescimento: do Steve que definitivamente não é mais o mesmo, do Will que com certeza sai mais calejado depois de duas temporadas sendo alvo do Mundo Invertido, e da Eleven que aprendeu a controlar os poderes. O fato é que quando todos estão presos dentro de casa com uma horda de Demogorgons do lado de fora, Eleven finalmente retorna e salva o dia. Ela não precisa mais ser salva ou aprender como funciona o mundo em que vivemos. Ela é quem fecha o portal do Upside Down e é ela quem salva o dia. Eleven reencontrou a mãe, a irmã de laboratório, os poderes e a si mesma. Definitivamente não é mais a mesma e está pronta para o que quer que o Mundo Invertido reserva.

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