Quando os sonhos vibram na mesma sintonia

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Crime, fama e religião convivem lado a lado no microcosmos de Sintonia, série brasileira da Netflix que chegou ao catálogo da plataforma no dia 9 de agosto. Criada e dirigida pelo KondZilla, a primeira temporada tem 6 episódios e narra a história Nando, Doni e Rita, três amigos que cresceram juntos em uma favela fictícia de São Paulo e agora buscam pelos sonhos. 

Sonhar quando se vem de periferia costuma ser mais difícil do que para aqueles que já nasceram com alguns privilégios. A meritocracia não funciona e vários empecilhos impedem que os jovens cheguem de fato onde almejam. Desmistificando a ideia de que todos na favela são criminosos, mas deixando claro o quão difícil se desvincular disso é para alguns, a série aborda de forma real a vida na periferia, mostrando as escolhas que fazemos e como convivemos com elas. E mostra mais ainda que às vezes nem é uma escolha. Você simplesmente é empurrado para aquilo. 

O Doni, por exemplo, tem privilégios mesmo sendo pobre. O jovem tem o sonho de ser cantor de funk - algo que Nando estando no crime nem se daria ao luxo de deixar passar pela cabeça - e cresceu em uma família estruturada. Seu pai é dono de uma mercearia e ele estuda em uma escola particular. Ao contrário do rapaz, Nando não teve a mesma a mesma sorte. 

Existem diversas periferias dentro da periferia. É idiota pensar que todos vivem a mesma realidade. Enquanto Doni tenta alcançar o sonho de ser cantor, na rua ao lado Nando se envolve com o crime. Durante os 6 episódios conhecemos a trajetória dele lá dentro, e como cresce no meio do tráfico. A série mostra toda a ascensão de Nando e como esse pode parecer o único caminho para ele.



Ao mesmo tempo que o rapaz luta para crescer no crime, Rita vê na igreja um refúgio para uma vida melhor. Não sabemos muito bem o que aconteceu no passado dela, mas fica claro que a personagem não tem contato com os pais. O contraste entre crime e religião cria um universo próprio para a série. Enquanto Nando está no tráfico, ao lado tem uma igreja funcionando. Apesar de ser legal a dualidade entre crime e igreja - principalmente por Nando e Rita serem amigos -, a série explora superficialmente o surgimento do desejo da jovem pela religião e o espectador pode até se pegar perguntando “de onde veio isso?”.

Das três trajetórias, a de Nando é a que foi melhor trabalhada. Por ele já estar no crime quando a história começa, a série precisou apenas se preocupar a partir dali, para onde ele iria nesse contexto que já estava introduzido. Já Doni e Rita ainda precisaram ser inseridos no funk e na religião, o que deveria ter recebido mais tempo de tela para trabalhar o desenvolvimento.

Talvez pela pouca quantidade de episódios não souberam conduzir isso direito. A ascensão de Doni no funk se deu muito rápido. É legal ver que na primeira vez que subiu em um palco as coisas não deram certo, e que tá tudo bem. Às vezes a gente não acerta de primeira mesmo. Por outro lado, depois disso, tudo acontece muito rápido e fica parecendo muito fácil ficar famoso e ir em um programa de TV.

Vir da favela não te impede de ter aspirações. Mesmo com todas as dificuldades, são os sonhos que guiam a narrativa de Sintonia. Em meio às descobertas do quão difícil pode ser a vida e o caminho que estão trilhando, os personagens descobrem que sim, ainda é permitido sonhar.

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