O decair é do homem... invisível | Resenha

Foto: Divulgação/Universal

Lançado no dia 27 de fevereiro no Brasil, o filme “O Homem Invisível” é uma adaptação de longa homônimo de 1933. A ficção-científica narra a história de um revolucionário e inovador gênio do ramo da óptica que mantém a namorada em um relacionamento abusivo. Após ser deixado por ela, ele aparentemente comete suicídio. Mas Cecilia (Elisabeth Moss), a “viúva” dele, acredita que tudo não passa de uma farsa, já que Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen) prometeu que não a deixaria em paz de forma nenhuma. Entretanto, todos desconfiam da sanidade dela quando ela afirma que o ex-namorado a persegue estando invisível.

Neste remake, ao invés de ter tomado medicamentos para conseguir a invisibilidade, Griffin projetou um traje futurista que impede que as pessoas o vejam. Cecilia, sabendo da genialidade prática do ex-namorado, desconfia (certamente) desde o início da trama que o suicídio havia sido encenado. Logo no começo, o thriller tira o fôlego do espectador, mas perde a intensidade e acaba deixando questões em abertos, além de ter uma cena digna de uma comédia pastelão.

A cena inicial, quando Cecilia tenta fugir da "fortaleza digital" construída por Griffin para aprisioná-la de forma disfarçada, já dá o tom da apreensão e angústia do longa. Ao evitar focar a câmera no rosto dele, a trama reforça a imagem de vilão de Adrian e o coloca como ser desumanizado. Quando a já liberta Cecilia consegue ser resgatada do calabouço onde era mantida, ela continua aprisionada dentro do seu próprio medo.

Somente depois de ser informada da morte do ex - e da generosa herança que ele deixou para ela - é que vemos uma tentativa de voltar ao “mundo real”. Tentativa essa frustrada por acontecimentos estranhos que beiram o paranormal.

Cecilia se mantém, no entanto, convicta de que Adrian não tirou a própria vida, afinal isso não combinava com a personalidade dele. Algumas confusões são armadas pela “assombração” que persegue a protagonista, como a cena em que ela deixa uma panela no fogão e a potência do fogo aumenta repentinamente e sem influência de ninguém (ninguém visível, pelo menos).

Em uma escalada constante, o susto mais consistente do filme revela que Cecilia está com a razão, embora essa confirmação surja apenas para ela. A partir de então, ela tenta proteger a si mesma enquanto busca comprovar que o suicídio de Adrian Griffin foi encenado apenas para que ele tivesse a oportunidade de infernizar a vida da ex. Nesse processo, ela admite que já “perdeu tudo” no relacionamento com ele, tornando, assim, seus entes queridos os próximos alvos do maníaco.

O filme tem mais acertos do que erros. A abordagem da magnitude do mal causado por um relacionamento abusivo é esclarecedora e aterradora. Quando ela admite que era castigada fisicamente pelo ex, essa revelação vem acompanhada de outras acusações, como o controle que ele exercia na vida dela de todas as formas possíveis. É um papel louvável ensinar na grande tela que agressores não precisam espancar para ser agressores. Nisso, está o maior acerto deste remake.

A tensão e angústia causada no início do filme é real, palpável, de tirar o fôlego. Entretanto, ela se esvai. O medo começa a decair quando temos algumas certezas, e nisso consiste o primeiro deslize. Ficamos completamente atônitos com a história, até que não ficamos mais. E, depois, vêm as dúvidas.

[Se você ainda não assistiu o filme, fique ciente de que agora pode encontrar spoilers]

A cena do assassinato da irmã de Cecilia em um restaurante lotado, onde uma faca conduzida por uma mão invisível lacera o pescoço da vítima e depois é prontamente posicionada na mão de uma protagonista chocada e sem reação, é no mínimo, difícil de engolir. A faca flutuante ganha ares de comédia pastelão, assim como a facilidade com que o instrumento é colocado na mão de Cecilia. Quebra o tom assustador do filme e desmancha um pouco do aperto que temos no peito.

Depois disso, quando o “homem invisível” consegue neutralizar uma quase dezena de guardas armados depois de ter sido repetidamente golpeado por uma caneta tinteiro de ponta extremamente afiada, há um reforço na imagem do inacreditável. Ferido, com a tecnologia do traje falhando e denunciando a sua presença, Adrian Griffin ainda consegue fugir em busca de mais um assassinato, antes de ser fatalmente ferido por Cecilia - e é aí que descobrimos que não se trata de Adrian, mas de seu irmão.

O suposto cientista maluco estava, na verdade, trancado em seu próprio porão. O irmão tinha planejado tudo, falsificado o suicídio de Adrian, perseguido a ex-namorada, pintado e bordado. Mas, se o objetivo dele era conseguir a herança, o que explica o fato de Adrian não ter sido morto? Nem eu nem Cecilia engolimos isso.

No melhor final Rihanna no clipe de Man Down, a protagonista confronta o ex-amado - e o mata mesmo sem uma confissão. Ela sai carregando um traje idêntico ao utilizado pelo vilão durante o longa, acompanhada pelo cachorro do casal (que, surpreendentemente, sobreviveu sozinho na casa do vilão durante os meses em que a história se passa) em busca de curtir sua mais recente e permanente liberdade.

A transformação em Cecilia é completa. Nada se vê da amedrontada e frágil mulher que fugia; ela passou a ser a forte e obstinada que combatia. O homem invisível com o qual ela se relacionava, assim como o terror do filme, degringolou durante o longa. Como já diria a expressão, o decair é do homem… invisível.



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